Apetece-me Falar de Bola

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Se há algo que ainda me consegue surpreender sobremaneira, é a valorização de passes de jogadores de futebol. Hoje em dia, nas centenas de milhões de euros.

Falo sem conhecimento de causa, mas arrisco-me a dizer que há países cujo PIB não chegava para ‘bater’ a cláusula de rescisão do João Félix. Um puto com 19 anos.

Numa indústria em que um produto pode valer centenas de milhões de euros, os interesses e interessados são obviamente muitos. Os escrúpulos minguam com o aumento dos milhões… e se a ganância não for sendo auto-monitorizada e auto-regulada (só cada um pode trabalhar na sua), certamente levará a corrupção moral. E não só.

Ganância. Essa faceta inerente à nossa natureza que nos envergonha. Talvez um “pecado” originado no medo primordial de “poder vir a faltar”. Talvez uma convicção – diria mais recente e socialmente condicionada – de que aquilo que temos não chega. E que se não fosse pelo peso e influência do nosso partilhado sistema de valores, não conseguíamos viver tão próximos uns dos outros.

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Mas voltando aos atletas e os seus passes. Qual é o custo de criar uma máquina de jogar à bola?

Muitos e variados sacrifícios. Não há outra forma para se poder sequer contemplar qualquer patamar de excelência.

Para os milhões de miúdos a quem lhes foi alimentado o sonho mas que lá não chegam, as consequências podem convidar o ‘Caos’ a entrar pela porta da frente: lesões crónicas causadas por sobrecarga de treino em tenra idade; defraudações por empresários e até família; oportunidades académicas postas de lado.

Há que proteger as nossas crianças. Também no “mundo da bola”, são sempre as mais vulneráveis e inocentes e aquelas que mais sofrem – seja às mãos de empresários oportunistas; empresas (antigamente conhecidas como “clubes”) sedentas de activos; ou pais cegos por ilusões e sonhos próprios imaterializados.

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É tudo muito interessante, mas quem é que paga?

Fácil! Sou eu!

Enquanto ávido consumidor de bola, estou disponível para sacrificar o meu sono para ver um jogo grande da Liga dos Campeões com os melhores executantes do desporto. E qualquer hora para O Glorioso.

Ai Benfica, Benfica! O meu absurdo. A irracionalidade que me faz vibrar num sofrimento apaixonado. É doença? Acho que não, mas mexe comigo.

Ver o Benfica a jogar à bola. A JOGAR À BOLA! E a ganhar jogo após jogo e continuando a jogar à bola, é algo de viciante que me enche de satisfação e com um sentimento de orgulho não… justificado/meritoso/merecido/ganhado (não encontro uma tradução leal para a palavra inglesa ”earned”).

Ultimamente tenho andado com o ego bem inchado.

No entanto, a não realização de expectativas faz sofrer, e de forma proporcional ao investimento emocional.

Na madrugada do dia em que me tornei um cidadão australiano, o Benfica perdeu a final da Liga Europa… pela segunda vez em dois anos. Foi uma cerimónia miserável, em que ainda hoje nela me custa pensar.

Enfim, há que dar um passo para fora. Observar. E rir. Há que rir das insignificâncias que nos fazem sofrer.

Mas este ano foi qualquer coisa. Especialmente nos jogos contra os nossos “eternos rivais”. Estou-me a referir aos jogos do campeonato, não estou aqui para falar de injustiças e roubalheiras em jogos de taças e troféus menores. 😜

Aqui nos antípodas, ganhando, vejo o resumo do jogo 10-20 vezes nos dias seguintes. Perdendo, não vou ler ‘A Bola’ durante 2 ou 3 dias e pronto. Estando longe passa mais depressa e quando a série negativa é assim um pouco mais prolongada, deixa de doer… quase.

A verdade é que esta temporada passei demasiado tempo agarrado a ecrãs. E se o Benfica continuar a jogar assim dou cabo da vista e deixo de ter tempo para os miúdos.

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Mas demais divago… Onde é que eu ia? Ah, tava dizer que ajudei a pagar pela transferência do Ronaldo para Juventus.

É por causa de gajos como eu, que (e sem ninguém levantar as sobrancelhas) se fala de um puto de 19 anos, “valer mais que 120m”! Qual é a indústria, fora do desporto, em que um ser humano tão novo e inexperiente, ‘vale’ tanto?

Mas no fundo, um produto vale aquilo que alguém está disposto a pagar por ele.

Então e eu? Continuo eu disposto a investir o meu tempo e energia emocional em algo que não consigo racionalizar?

Parece que sim. Tamos a jogar demasiado à bola para não o fazer.

O #37 foi do caralho! Absolutamente épico!

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P.S. Tenho a dizer que gosto muito do discurso do mister Bruno Lage. Um gajo terra-a-terra e bem com a vida.

“Isto do futebol é treino a treino, jogo a jogo. É como a vida, vive-se agora, dia a dia.”

“Em Portugal faz-se muito o luto do insucesso”

Bruno Lage

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