Identidade – Parte 1: Gerais Deambulações

Há quem diga que o século XXI é o século da Identidade. Tendo esta temática uma abrangência intelectual enorme – e por ocupar bastante espaço na praça pública moderna – tenho reflectido um pouco sobre o conceito “Identidade”.

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Sistemas Identificativos

Toda a identificação, seja ela individual ou colectiva, é baseada num sistema de valores, em que estes se organizam de forma hierárquica (i.e. há valores mais valiosos do que outros).

Exemplo: tanto ser pai como fazer surf são características identificativas da minha pessoa, no entanto valorizo muito mais o meu papel de progenitor do que o de surfista.

Poderia opinar sobre qual o melhor instrumento para acordarmos “verdades/identificadores” comuns, mas (e não tendo dúvidas que Políticas de Identidade é o pior de todos) não creio que haja um sistema identificativo que seja 100% objectivo.

Repara, se toda a experiência (“verdade”) é subjectiva – e a linguagem que usamos para a descrever é condicionada por estruturas culturais, educacionais, históricas, cognitivas e filosóficas bem distintas – então esta procura de objectividade torna-se praticamente impossível.

Argumento pois que, uma realidade “verdadeira” não existe e que existem tantas quanto o número de ‘experienciadores’.

Isto não quer dizer que não haja um sem número de “verdades” que todos partilhamos porque assim acordámos – afinal de contas, ambos aceitamos que esta palavra é uma palavra. Ainda assim, em pleno 2019, há quem diga que a terra é plana.

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A Analogia da Cebola

Vejo a identidade do indivíduo como sendo uma cebola no sentido em que tem várias camadas. As camadas (i.e. dimensões identificativas) formam uma hierarquia em que a sua identificação mais valiosa está no centro. É o seu cerne, âmago… essência.

A hierarquia das dimensões identificativas (valores) é estabelecida quando as várias camadas entram em conflito. Só com este embate é que se consegue honestamente determinar qual o identificador (valor) que toma precedência sobre o outro.

Exemplo: eu identifico-me como um gajo honesto e leal, mas se numa determinada situação de trabalho, a única desvantagem de ser honesto é seriamente prejudicar um colega, então a lealdade torna-se uma camada mais interior. Se houverem outras condicionantes, mais conflito e subsequente hierarquização haverá.

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Quanto mais superficial a camada, mais abrangente esta é. Quanto mais interior, mais pessoal se torna. No entanto, e talvez de forma contraditória, acredito que o núcleo dos núcleos da cebola é comum a todos os seres vivos.

À falta de um termo melhor chamo-lhe: “singularidade universal”. É assim uma espécie de “todos diferentes, todos iguais”, onde na unicidade de cada um existe um denominador comum… uma energia fundamental.

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Máximo Identificador Comum

São muitas as escolas de pensamento e filosofias orientais que defendem a existência desta energia fundamental: os chineses chamam-lhe Chi; os hindus Prana; os Jedis “A Força”; mas tu conhece-la melhor como “Energia”, ou até mesmo “Amor”.

Esta energia de difícil (mas dizem que de possível) tangibilidade, flui muitíssimo bem quando há confiança mas é constrangida pelo medo.

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Há quem defenda também que todas as dimensões identificativas são limitativas e as principais causadoras de sofrimento no mundo (i.e. identificação com a tribo: raça, religião, classe, nação, etc.). E que a verdadeira felicidade (bliss) universal só será alcançável quando nos conseguirmos identificar com o Cosmos.

Esta ideia apraz-me sobremaneira e – em certa medida – vai de encontro à minha crença de que o próximo estágio da evolução humana será o da evolução da consciência.

No entanto, o meu nível de apego ao nível identificativo “Pai” é demasiado elevado para conseguir contemplar o Universo como o meu máximo identificador.

O que não quer dizer que não veja enorme valor em trilhar esse caminho, porque vejo… e já me descalcei para o caminhar!