Luta ou Fuga

O Sistema Nervoso

De forma (muito) simplificada, o teu sistema nervoso — em termos funcionais — divide-se em dois: o sistema somático e o sistema autonómico.

O somático é a parte do sistema nervoso que voluntariamente responde a estímulos externos, enquanto o autonómico regula funções corporais internas de forma involuntária (inclusive o teu sistema imunitário).

Por sua vez, o sistema autonómico divide-se em dois sub-sistemas: o simpático que é basicamente a resposta de “luta ou fuga” (i.e. prepara o corpo para actividade física intensa enviando sangue extra para os músculos); e o parassimpático que é responsável por conservar energia, abrandar o ritmo cardíaco e curar.

São conhecidos respectivamente pelo “acelerador” e o “travão” do sistema nervoso autonómico e estão sempre a trabalhar para manter um estado de homeostase no corpo, ou seja, o equilíbrio relativo entre todos os sistemas.

As funções corporais geridas pelo sistema autonómico incluem: ritmo cardíaco; fluxo sanguíneo; digestão; respiração; transpiração; resposta pupilar; micção; e excitação sexual.

Resumindo, o teu sistema autonómico regula uma variedade de processos corporais que não dependem de um esforço consciente da tua parte.
Afinal, quando é que foi a última vez que tiveste de te concentrar na tua digestão para ela ocorrer?

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‘Fight or Flight’ 

Há já milhões de anos que o nosso sistema ‘fight or flight’ (luta ou fuga) nos ajuda a lidar com ameaças externas. É essencial para a nossa sobrevivência e uma pedra fundamental da nossa evolução e existência.

Quando os nossos antepassados se apercebiam da existência de um predador, o corpo instantaneamente entrava em estado de alerta e direccionava toda a energia para os músculos que iriam ser usados para lutar ou fugir – eu diria que muito pouca energia ia para o cérebro quando a escolha era lutar com um leão. 

Quando o perigo passava, o sistema parassimpático tomava conta da ocorrência e realocava a energia aos processos regenerativos – com a diminuição do ritmo cardíaco e da frequência respiratória, o corpo podia voltar a digerir o pequeno almoço e concentrar-se em combater quaisquer maladias. 

Assim sendo, faz sentido que o teu corpo esteja em harmonioso equilíbrio, e que o teu bem-estar físico e emocional sejam maiores quanto mais tempo o teu sistema parassimpático estiver a “gerir a coisa”.

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Os Tigres Modernos

Hoje em dia, para sobrevivermos, podemos completamente ignorar obstáculos naturais como predadores e eventos meteorológicos. Apesar disso, continuamos convencidos que os tigres andam aí e que “querem-nos foder” 😉 T. 

Mas estes são tigres de papel

Tu e eu temos todas as nossas necessidades primárias mais do que satisfeitas. No entanto, no desejo de ter mais conforto, mais estatuto, mais dinheiro, mais poder, mais bens materiais, mais isto, mais aquilo, mais desejos, mais vontades e mais e mais e mais… acabamos por confundir “vontades” com “necessidades”

Já ouviste políticos falarem na “necessidade” de “constante crescimento económico”, mas a nível individual, é a “necessidade” de “constante crescimento de conforto” que nos levou a trocar doenças de insuficiência por doenças de excesso

Acredito que se queremos ser mais saudáveis temos que fazer um esforço consciente em procurar e abraçar o desconforto — não comer o que apetece sempre que apetece; evitar condicionar o nosso clima; consumir menos; desejar menos; contemplar mais. 

A nossa biologia pouco ou nada mudou nos últimos milhões de anos, mas hoje as situações que nos levam ao estado de “luta ou fuga” não são animais que nos querem comer, mas merdas tão insignificantes como o conteúdo de um email; uma reunião; o resultado de uma eleição ou de um jogo de futebol. 

Ensinámos ao nosso corpo que ter uma conversa difícil é uma ameaça à sua sobrevivência.

A reacção do meu corpo — seja a ver o Cervi ou o Pizzi falharem “golos cantados” na Liga dos Campeões, seja a ver um tubarão na minha surfada matinal – é igual.    

O stress é uma manifestação do sistema simpático e quando usado em curtos períodos de tempo não faz mal nenhum, antes pelo contrário — os nossos antepassados foram aqueles que conseguiram fugir do tigre… pelo menos até terem procriado. 

Mas existem grandes diferenças entre o stress moderno e o de outras eras: a frequência, intensidade e duração dos períodos de stress, são hoje mais maiores grandes… assim como a energia que é roubada para processos mais vitais. 

O stress crónico (causado por longos períodos em estado de “luta ou fuga”) abre a porta à doença física e mental. Basicamente, o corpo não tem os recursos necessários (energia) para se regenerar e trabalhar saudavelmente, porque estes estão a ser usados para lidar com falsas ameaças externas.

E assim nos tornámos e assim andamos: mais fracos; menos resilientes; mais gordos e moles; menos saudáveis; mais dissociados da Natureza; e menos conectados com a nossa.

Mas não somos vítimas deste status quo, só quem assim o escolher.
Tu e eu, temos neste preciso momento, todos os recursos necessários para nos tornarmos não só mais saudáveis, mas também para vivermos vidas bem mais felizes, gratas, abundantes, inspiradas, livres e repletas de amor.

Só vejo duas possíveis razōes para não perseguirmos uma vida mais serena e harmoniosa: ignorância preservada em cinismo, ou pura apatia

Mais uma vez, recomendo cepticismo e curiosidade.

2 thoughts on “Luta ou Fuga

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