Nuno

Preciso de escrever sobre o Nuno. Podia escrever e guardar no ipad só para mim; podia-me apalermar nas redes sociais; mas prefiro libertar por aqui as minhas palavras.

Devo ter conhecido o Nuno talvez há uns bons 12 anos. O Nuno é um tipo do Norte; quando fala, o sotaque elimina qualquer hipótese de ter nascido a baixo do Douro e a palavra “caralh…” serve de maiúscula, vírgula, ponto final, ponto de exclamação, reticências, parágrafo, etc. Conheci-o em trabalho, nunca tivemos uma relação próxima, nem de trabalho e nem de amizade, mas sempre percebi que o Nuno era um excelente profissional e um excelente Ser Humano. O Nuno tinha e tem uma capacidade de trabalho imensa, que eu não tenho e não sei se conheço alguém que tenha uma como a dele. Resiste a altas doses de pressão e problemas, mas procura sempre o caminho da solução e nunca manda a toalha ao chão. Vi-o explodir uma ou duas vezes… mas ninguém é de ferro!

O Nuno é o que se pode considerar uma pessoa boa e honesta. Vem de famílias humildes; estudou e licenciou-se a seu custo e mérito; esforçou-se como um louco no trabalho para poder subir na vida; casou; construiu uma casa para sua família; teve filhos; criou a sua empresa; e trabalha para que os seus vivam melhor.

Soube agora que um dos filhos do Nuno tem um cancro no cérebro. Um, três ou doze meses de vida. Talvez com um milagre, algo de diferente ocorra.

E penso: como pode o Nuno conseguir levantar-se da cama com este peso em cima? Como pode sequer conseguir dormir à noite? Como? O filho do Nuno tem 6 anos.

E penso: e se fosse comigo? E se fosse comigo? E se fosse comigo?

One thought on “Nuno

  1. Anunciada ou não, a morte de um filho é o pior pesadelo para um pai!
    Se fosse contigo ou comigo, simplesmente o mundo ia acabar… para depois recomeçar.
    Um mundo novo, sem cor, sem sal e com um vazio impreenchível.

    Falo sem o conhecimento de causa que espero nunca ter, mas sei que iriamos continuar. Não somos feitos de matéria diferente da de todos aqueles pais, agora sem filhos, que à nossa volta andam.
    Já por duas vezes experienciei esse sentimento em 2o grau, pela proximidade de pessoas que amo. Sofri e sofro com eles, nunca como eles.
    Tento-me pôr na sua pele, mas é impossível. No final do sentimento imaginado tenho 3 pequenos sorrisos a receber-me quando chego a casa.
    No meu egoísmo acabo sempre por vergonhosamente admitir que ainda bem que não foi comigo e encho-me de gratidão por tudo o que tenho… e eu tenho TUDO!

    Aproveita para ainda mais valorizar os teus e agradecer a sorte que tens.
    É o que faço quando penso nos “Nunos” da minha vida.
    Mas acabo sempre por pensar: “Merda! Merda para mim se é preciso a morte de uma criança para mais valorizar as minhas!”

    Enfim, concentremo-nos no milagre!

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