O Comprimido – Parte I

O Comprimido

Ser comum não é o mesmo que ser normal… muito menos natural.

É comum medicar tanto miúdos como graúdos. 
Não é normal depender de comprimidos para conseguir sair da cama.
Não é normal medicar crianças porque estas se comportam como tal — mas neste caso é principalmente para conforto de pais e docentes, e em nome da conformidade social.

“Não consigo dormir!”, “Toma este comprimido!”; “Dói-me aqui!”, “Toma aquele!”; “O seu filho (que até aos 3 anos ficou em casa com a mãe) não se está a integrar muito bem no seu 1o mês de infantário! É diferente das outras crianças. Sugiro que marque uma consulta com este especialista!”

Fomos socialmente condicionados para acreditar que existe uma solução artificialmente sintetizada para toda e qualquer maladia que nos aflige. 
É uma crença colectiva, engolida individualmente. 

.

Falando de crenças, descrevo aqui um exemplo que salienta o poder daquilo em que acreditamos e de como se manifesta:
Num estudo em doentes com cancro, dividiram-nos em dois grupos. A um foi-lhes administrado a medicação e ao outro (o grupo de controlo) um placebo. No grupo de controlo, a 30% dos pacientes caiu-lhes o cabelo.

Quais não seriam os resultados se acreditassem que se estavam a curar?

As doenças auto-imunes (i.e. “doenças incuráveis”, em que o sistema imunitário ataca o corpo por engano) são cada vez mais comuns e prevalentes, especialmente nos países mais desenvolvidos (o que por si diz muito). Esta realidade faz-nos dependentes de medicação até ao fim dos nossos dias. 

Esta dependência não é só fruto da nossa cultura, é também uma escolha. Aliás, é por acreditarmos que não temos escolha. 

Voluntariamente damos o nosso dinheiro em troca da promessa de nos eliminarem a dor. E quem é que não está disposto a pagar para não sofrer? Tanto mais quanto maior for a dor. 

Felizes e contentes na nossa ignorância conformista, sem hesitações engolimos a pílula mágica que providencia a ‘quick fix’ que esconde as manifestações de sofrimento do nosso corpo (i.e. suprime sintomas) e culpamos os nossos genes e o mundo pelo nosso sofrimento.

Culpa quem quiseres, mas o teu bem-estar é da tua exclusiva responsabilidade.

E como a doença não se manifesta, não precisamos de nos privar de nada e podemos continuar com os comportamentos que a mantêm presente: comer lixo; beber mais um copo; preocuparmo-nos com insignificâncias; e/ou trabalhar longas horas em empregos que detestamos. 

.

“Abaixo o Capitalismo!”

Este pequeno ‘à parte’ podia ser exclusivamente para a Katiliana, mas na verdade (e considerando-o mais que 70% good enough) faz parte do enredo desta série sobre “o comprimido”, cujo clímax é atingido na 3a parte. 

Pronto, agora que expectativas hiperbolizadas estão inevitavelmente criadas, deambulo aqui sobre uma confusão de conceitos.

.

Sem ser a Greta e a malta que vai de monociclo protestar em frente ao Banco de Portugal, já ouvi família e amigos clamar uma espécie de: “A culpa disto tudo é do Capitalismo!” — gente com estudos, relevante experiência de vida e a quem reconheço sensatez. 

Concordando com o Sr. Churchill, considero a Democracia o sistema político menos mau de todos os que já foram experimentados. Já o Capitalismo, tendo sido o sistema que mais gente tirou da miséria e pobreza abjecta, é o melhor modelo económico de sempre. Não concordas? OK, aponta-me um melhor!

E admitindo que o sistema capitalista tem “dinâmicas” bem distintas de acordo com o nível de influência (regulação) do Estado, a confusão que vejo é entre Capitalismo e Corporativismo

Defino Corporativismo como: o conluio entre o “contador de votos” e as empresas com o fim de atingirem os seus objectivos (poder e lucro, respectivamente). 

Sucintamente: os políticos e empresários metem-se na cama, mas quem se fode és tu. 

.

O Capitalismo é associado ao consumo, mas o problema não reside no consumo em si — porque todos nós consumimos (e muito) todos os dias e sem consumir a vida seria impossível — mas sim naquilo que consumimos. 

Temos o poder de direccionar os nossos euros para produtos e serviços menos nocivos e de maior valor: comida biológica; energia verde; roupa “humana” e sustentável; rejeitar plásticos, bugigangas e distrações inconsequentes.

Podemos e temos a responsabilidade de o fazer a nível individual, mas vejo o poder político como essencial na criação dos incentivos que implementam mudança de “escala” nos hábitos do consumidor. 

Simplesmente, quem nos governa tem a responsabilidade de promover o que sabemos ser sustentável, saudável e benéfico para nós, e penalizar o que não o é.

Mas enquanto não formos mais exigentes e proficientes na escolha de quem nos representa, por aqui andaremos: a queixarmo-nos; a culpar outrem; a comer merda; a superfluamente consumir; e a inconscientemente engolir comprimidos de várias formas e feitios. 

.

To be continued…

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s