Virais Deambulações

Já que não ouço ninguém falar disso, decidi deambular um pouco pelo COVID-19.

Confesso que estava dessensibilizado em relação à gravidade desta situação  que, tanto quanto sei, é inédita. Pelo que apreendi, para além de ser um virus que mata mais do que a gripe “normal”, propaga-se bem mais rapidamente, deixando os meios de saúde sobrelotados, os profissionais exaustos e incapazes de lidar com o volume de doentes. 

O Corona não é ainda aquele que nos vai transformar em zombies, mas já matou e continuará a matar — as crianças estão mais protegidas; os mais velhos e os mais doentes estão em maior risco; enquanto os estudantes vão para a praia e Bairro Alto.

Acho que quarentena forçada é a medida certa para melhor conseguir gerir a situação, recuperar o fôlego e planear os próximos passos. 

Mas quarentena é também sinónimo de “pára-tudo”. Para mim um mal menor, e ousando quantificar o valor de uma vida humana de forma subjectiva, acho que os danos à nossa sociedade enquanto a conhecemos, serão bem superiores aos danos à saúde. 

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Prognósticos

Relativizado que está o sofrimento humano, armado com a frieza dos números e das opiniões “deseducadas” dum gajo com tendências deambulatórias, prognostico agora o nosso futuro a curto, médio e longo-prazo.

Curto: vamos todos ficar em casa 24/7 durante umas semanas, ansiosamente a trepar paredes de tédio e preocupação. Ninguém vai trabalhar, ninguém vai para a escola, ninguém vai à bola, menos se consome, pouco se produz. 

É possível virmos a experienciar escassez de uma maneira ou outra, com dificuldade em arranjar alguns bens de 1a necessidade. Mas ninguém vai morrer por falta de papel higiénico e em último caso o exército traz-te pão e para além da ordem, manterá os serviços vitais (como o santo wi-fi), operacionais.     

Médio: O vírus vai passar e voltaremos a sair à rua. Encheremos esplanadas e lentamente descascaremos o medo uns dos outros. Com sol nas ventas reaprenderemos a dar dois beijinhos e um “passou bem”. 

Mas entretanto, tudo esteve fechado ou parado — lojas, fábricas, estádios, hotéis, cafés, autocarros e aviões. Malta ficará desempregada e negócios vão penar e fechar. 

Tanto o indivíduo como o Estado vão vergar porque não houve o fundamental crescimento económico — aquele que me vendem como essencial para poder sorrir.

Longo: Basicamente, a longo-prazo: We’re gonna be alright! Somos um bicho deveras resiliente e adaptativo, e vamos sair do outro lado com mais conhecimento e transformados. O grau e direcção da transformação é algo que começamos a decidir agora.

Como é que iremos evoluir nesta imposta aventura?

Mais Prognósticos

Apresentam-se tempos desafiantes para a nossa civilização. Só no século passado, os nossos antepassados, entre outras crises, passaram por duas guerras mundiais e o Crash de 1929. Tu e eu, conhecemos a Grande Crise Financeira de 07/08, mas é provável que seja uma brincadeira comparada com a que aí vem.

Acho que quando os pós virais assentarem, o nosso corrente modelo económico vai-se ressentir sobremaneira e acho que vem aí a “Grande Crise” da nossa geração. Mas venha lá o que vier, não vale a pena chorar muito, é o que é, e é com isso que vamos lidar.

Digo isto sem ponta de histerismo ou alarme, mas sim excitado! Excitado em relação a um futuro, repleto de potencial, que exigirá o melhor de nós. 

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Wishful Thinking

Tal como a pessoa que muda os seus hábitos e a sua perspectiva em relação à vida após ser diagnosticada com uma doença incurável, abracemos uma epifania colectiva reaprendendo o que é realmente importante e significativo.

A necessidade vai-nos obrigar a simplificar — e mais simples é sinónimo de mais tempo. É uma excelente oportunidade para ponderarmos as escolhas que nos farão evoluir de forma mais saudável e sustentável. 

É uma excelente oportunidade para: pôr de lado ideologias acabadas em ‘ismo’ (principalmente o materialismo); e reavaliar e assumir os valores que queremos como nossos. 

Sugiro que valorizemos: comunidade; crescimento (e não me estou a referir ao económico); contribuição; e acima de tudo, uns aos outros… valorizemos as nossas relações. Incutamos esses valores na geração que lá vem.

Quais são os valores que queres para a nossa civilização?

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Estamos Juntos

Há que preparar-mo-nos e criar as condições para recebermos o desconhecido com um sorriso nas ventas. Vai ser duro certamente, mas nas sábias palavras do Capitão Nascimento: “Quem falou que a vida era fácil?”

Para além do mais, dureza é passar fome ou viver uma guerra: imagina-te a viver, onde estás, nas décadas de 10, 20, 30 e 40.

Em vez de escolher ser vítimas, aceitemos o privilégio de ter tamanho desafio à nossa frente e as ferramentas para com ele dançar.

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