Pelo Ar que Respiramos – Parte III: Evolução

O Ser Humano, tal como é hoje, é o produto de variadas dimensões evolutivas.   

Sobre a Biológica e a Tecnológica

De um lado, fascina-me a eficiente complexidade do nosso organismo; do outro, seduzem-me as ferramentas que nos acompanharam na nossa evolução cognitiva.

São ferramentas manifestamente úteis que melhoram a condição humana; sustentam um conforto inédito; um conforto que nos permite aprender mais; alimentam a curiosidade; e conseguem providenciar gratificação instantânea… e vejo poucos benefícios no que toca a elevados níveis de conforto e a capacidade de satisfazer vontades com o toque de um dedo. 

Em certa medida, as ferramentas subjugam. Criam uma dependência de certezas; asseguram que a expectativa será sempre satisfeita – tenho água quente com o rodar de uma torneira; ilumino a sala com o toque de um dedo;  A+B dá sempre C.

Inconscientemente, o hábito de depender da tecnologia, torna-se puramente corporal.
Mas isso é só até faltar a luz; ou o esquentador falhar. Aí, qual toxicodependente em início da recuperação, a ressaca massacra o corpo, mas a dor acaba por se alojar na mente.

O simples exercício de me imaginar a viver como viviam os meus bisavós é doloroso, quanto mais realmente viver sem electricidade ou estruturas sanitárias. É no entanto, um excelente exercício para instigar gratidão pelo que tenho.

São também as ferramentas, nomeadamente as mais modernas, que alimentam estímulos constantes; facilitam a acção sobre o impulso; e que, com a nossa racionalizada conivência, transformam vontades em necessidades

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Entre a evolução biológica e a tecnológica, a minha curiosidade (e espanto) leva-me aos distintos períodos temporais necessários para: de um lado, apurar desta máquina magnífica a que chamamos ‘corpo’; e do outro, o fruir das coisas que imaginámos. 

O tempo para o que “somos” e o que criámos. 

O teu organismo não apresenta diferenças significativas desde há 200 mil anos para cá, mas largos milhões foram necessários para que, de uma célula, habitássemos agora neste conjunto de sistemas complexos, desenhados para o equilíbrio, para a homeostase. 

Já em termos de desenvolvimento tecnológico, desde a primeira clava, a primeira arma, até à máquina a vapor, também milhões de anos foram necessários. No entanto, nos últimos dois séculos, o progresso tem sido exponencial, absolutamente incrível – escrevo/lês estas palavras, numa máquina que permite ligação directa e instantânea a todos os habitantes do planeta… talk about an Ego feeder, hã?

E enquanto alguém nascido no século V, pouco estranharia acordar no mundo do século XV (talvez a arquitectura e indumentária vigentes), creio que os meus avós não veriam o mundo de hoje como sendo nada menos do que ficção científica, pura magia.

Demorámos milhões de anos para inventar o telefone mas – apenas 150 anos depois do 1o telefonema alguma vez feito – temos no bolso, uma ferramenta que nos permite, em minutos, ter um carro para nos levar onde quisermos; comida entregue em casa, no parque; ver se amanhã há ondas; ou, até mesmo… fazer um telefonema.

Será que a morosa passada da evolução biológica, permite ao corpo (a cabeça, principalmente; a mente, especificamente) acompanhar o sprint da evolução tecnológica?

Não sei! Parece-me improvável, pelo menos de uma forma saudável e sustentável, mas veremos… 

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Sobre o Conforto

Numa (em certa medida, patológica) procura de conforto, uma significativa porção do nosso investimento em tecnologia serviu para condicionar o ambiente em que habitamos.

Naquele dias de verão, em que “não se pode” com o calor, basta carregar num botão (ou só pedir à Siri) para que a sala ou habitáculo ocupado arrefeça… voilà, fresquinho bom, magia.
Quando o desconforto faz bater o dente, liga-se o aquecimento ou veste-se uma camisola – repara que, até a roupa, quando considerada num período de evolução biológica, é uma ferramenta recentíssima.  

Mesmo sem confinamentos, já passamos a esmagadora maioria do nosso tempo dentro de portas, seja a comer; dormir; em transporte; ou socializar. A nossa vida é passada indoors. A evolução do trabalho – do campo para o ecrã – ainda mais acentua esta realidade.

Quando foi a última vez que passaste mais de 3 horas seguidas sem a cabeça sob um tecto ou tejadilho? E duas? Uma?

Quere-me parecer que a intensidade e celeridade das condicionantes que impusemos ao ambiente que nos envolve (e aquilo a que chamamos comida), está a levar-nos para uma “de-evolução” biológica; caminhamos para um estado menos resiliente; mais frágil; mais propício à doença, ao isolamento na nossa “zona de conforto/segurança”; à dependência de ferramentas químicas.   

O ser humano está mais gordo; mais fraco; mais doente; mais medicado; e bem pior, cada vez mais triste. 

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O exponencial desenvolvimento tecnológico – juntamente com o nosso afastamento e resguardo da morte (as pessoas morrem em hospitais ou lares e os animais que comemos são produtos fabris) – exacerbou a nossa obsessão pela imortalidade.

Momentos de “realização” da nossa vulnerabilidade tornam-se mais frequentes e mais intensos. Sofrimento auto-infligido! 

Procuramos (e encontramos) conforto, entretenimento, prazer, distrações, mas é enorme a dificuldade em encontrarmos satisfação. 

Sem surpresa, desenvolvemos enorme aversão ao risco; abominamos o desconforto. Evoluímos para a crença de que o conforto é um direito (cada vez mais abrangente), assim como exigimos estar expostos ao menor risco possível, com tendência para zero… and then some!

Considero que alcançar um estado de conforto permanente (em que dada a nossa natureza, terá de ser sempre crescente), com todas as necessidades (vontades) satisfeitas, sem dor, sem medo, sem risco – é, não só irrealista, como altamente indesejável.

É certo que vivemos bem mais tempo, a evolução tecnológica – nos campos da higiene e da medicina – permitiu isso. A falta de saúde oral já foi a maior causa de morte do Homem, mas hoje, duvido que morrer de dentes podres conste no top 100.

E qual o custo que pagamos pela longevidade acrescida?
Não sei quantificar, parece-me que (parte da) a resposta é de um foro mais qualitativo: pagamos na perda de qualidade do “tempo extra”.  

Quantos de nós não temos uma doença crónica auto-infligida? Uma diabetes; uma psoríase; uma alopecia; uma tiróide disfuncional; uma artrite reumatóide?
Quantos de nós não tomamos (pelo menos) um comprimido ao dia? À noite, para dormir?

Que força nos impõe um comprimido para conseguir dormir? É comum, chamamos-lhe “normal”, mas não é natural!
Será assim tão inverosímil que, brevemente, normalizemos o engolir de ferramentas químicas para “poder” respirar melhor?

Tenho a certeza que uma maior exposição ao ambiente em que evoluímos (exterior, com muito “natural”) – juntamente com uma maior consideração por aquilo que ingerimos (quantidade e qualidade) – tornar-nos-á bem mais saudáveis. 

Os nossos corpos guardam segredos; verdades geneticamente tatuadas, que – na nossa ignorância arrogante; na nossa procura de conforto e segurança eternas – insistimos em contrariar. 

Pelo Ar que Respiramos, porque é exclusivamente no ambiente que nos envolve que o encontramos em cada inalação.

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To be continued…

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