Sobre “Estudos” e “Verdades Científicas”

O texto mais abaixo é uma carta da autoria do biólogo João Martins e encontrei-a aqui, o título é meu.

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Numa altura em que a religião do cientismo nos proporciona um qualquer estudo que valida a posição defendida (e sendo que, sob as mesmas condições, duas conclusões opostas e contraditórias, não podem ambas ser simultaneamente verdadeiras), é essencial escrutinar as fundações que sustentam as conclusões;  e os interesses (políticos e financeiros principalmente) que movem a nobre empresa que é o Método Científico. 

Uma conclusão do “estudo certo”; financiado pela “entidade certa”; executado pelo “cientista certo”, rapidamente se torna em dogma; em mais um “facto cientificamente provado”, que servirá de justificação para a tomada de decisões (que darão lucro a uns, poder a outros), muitas vezes com implicações globais.

Mas como qualquer advogado o confirmará, indício, não é, de todo, a mesma coisa que prova.

Quando desenvolvemos “estudos” que, em vez de observação empírica e medição directa, se baseiam em modelos que visam prever comportamentos futuros, o input é inevitavelmente corrompido pelas inerentes tendências humanas e individuais no estabelecimento dos pressupostos do modelo; e limitado pelo nosso conhecimento (não sabemos aquilo que desconhecemos).  

Mas o que mais me surpreende na condição humana é que, mesmo quando a realidade observada (prática, verdadeira) não corrobora a conclusão do modelo (teórica, estimada), temos relutância em largar a “verdade” que aceitámos, do “estudo” que valida o que queremos acreditar – somos todos humanos, todos sofremos de ‘Confirmation Bias’.

Todos, menos eu, claro!

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Enfim, achei este texto absolutamente brilhante e aqui o partilho:

“Estudos: o que é isso? Permita-me uma digressão logo no início, que me parece que também lhe dará que pensar (no dossier “malefícios dos ecrãs”). Problema grave, uma patologia da ciência. A Física em muitos momentos da sua história evoluiu através de “thought experiments”, dispositivos experimentais imaginados que obedeciam às leis da natureza e em que se propunha a observação de determinado fenómeno (um dos mais conhecidos e citados, por vezes com tanta ignorância como quando se diz que “está no seu DNA”, é o do gato de Schrödinger). Independentemente das escolas filosóficas e das suas alianças à ciência física no séc. XX, a essas experiências “mentais” seguia-se um confronto com a realidade concreta.

Exemplo: a verificação da teoria de Einstein sobre a massa causar uma curvatura no espaço-tempo com observações feitas sobre o eclipse do Sol de 1919. Nas ciências menos “duras”, como a Biologia, usa-se também um “método” (tenho relutância em usar esta palavra neste contexto) análogo: depois das observações “in vivo”, seja no organismo em estudo, seja num outro parecido com ele (por exemplo: estudar a fisiologia humana usando outros mamíferos) passou-se, quando se tornou tecnicamente possível, à experimentação “in vitro”, em laboratório, tanto usando organismos desgarrados do seu ambiente (por exemplo, culturas de bactérias) como, ainda mais recentemente, em sistemas acelulares, isto é, em “tubos de ensaio” (ou outros dispositivos) em que já não estão presentes organismos completos mas apenas o seu “extracto” bioquímico.

Estes sistemas servem para estudar certos pormenores do metabolismo, aspectos da enzimologia, etc. Na Ecologia, também se usam “microcosmos” (por exemplo: uma “piscina” onde se colocam diversas algas e animais para estudar as suas interacções). Claro que a Biologia só evolui(u) quando estas experiências “in vitro” e em microcosmos passaram pelo confronto com a realidade concreta. Só que, a certa altura, deixaram de passar. Foi depois de um especialista informático desenvolver uma”metodologia” para criar “autómatos celulares” que representariam o “funcionamento” dos organismos vivos num computador, através de programas adequados (atenção, aqui introduzi sub-repticiamente uma noção que não defini, “programas adequados”). Seria interessante para estudar “in silico” (no silício dos microprocessadores) o desenvolvimento de medicamentos, por exemplo. Isto foi pelo fim dos 1980s ou no início dos 1990s.

Evidentemente que se tratava de “thought experiments” que, naturalmente, teriam que ser verificados em “modelos animais” antes de serem testados em humanos para, finalmente, se promover a sua utilização no dia-a-dia terapêutico. Só que, as capacidades dos computadores aumentaram muito, rapidamente apareceram programas para, com procedimentos simples (em geral, gráficos) construir conjuntos (conjuntos de “caixas” (ou “estados”) ligados por tubos com “torneiras” (ou “taxas” de fluxo), sem que o operador tivesse que se preocupar com a tarefa de “equacionar”, ou “pôr em equação” o problema ou sistema que estava a estudar: tudo os programas resolviam/resolvem numericamente. Ou seja, a-teoricamente: não se trata de encontrar a relação “formal” entre estados (que se representa por uma equação) e partir daí para verificar se essa relação existe na realidade concreta, basta que haja uma tabuada que articule as grandezas de causa com as de efeito por qualquer meio. Depois, apareceu a “operacionalização” desta ideia e o seu desenvolvimento numa aberração epistemológica. Os amigos dos animais decidiram “lobbyar” para se acabar com o teste em animais, primeiro de cosméticos e mais tarde de medicamentos: os resultados “in silico” chegam, dizem eles.

Obviamente, o proponente da ideia, há três décadas, sabia perfeitamente que um programa só deita cá para fora aquilo que pusemos dentro dele; portanto, como o nosso conhecimento da natureza é limitado, os resultados são limitados ao âmbito desse conhecimento; mas isso não sabem os “amigos dos animais”. Depois, apareceu uma espécie de “penso rápido” para esconder esta aberração, na medicina, a “evidence based medicine”: se a estatística diz que resulta, aplique-se; mesmo que se não saiba que meios materiais fazem com que a coisa resulte. Claramente, eu não entraria num avião para fazer uma viagem se ele tivesse sido construído com base numa “evidence based engineering” em vez de ter como base o conhecimento das leis da Física. E, evidentemente, apareceu a “ecologia” “in silico”: sai mais barato os investigadores estarem sentados a olhar para os resultados de “modelos” do que andar na natureza a contar bichos ou plantas, a medir taxas fotossintéticas, etc. E assim surge a base do que chamam “ciência do clima”: tudo se passa “in silico”, sem sequer olhar para a realidade concreta. O que levou o Guterres a molhar as calças numa ilha do Pacífico para “mostrar” que o nível do mar está a subir, como se a boa fita métrica da Física fosse o tamanho das pernas do Guterres, sem se preocupar com perguntar onde estava o nível do mar naquela ilha há 20, 30, 50, 100 anos, o que despromoveria o seu número de circo do nível cómico para o do grotesco: a dita ilha não mudou de tamanho, não se afundou nada desde, pelo menos, a Segunda Guerra.

Donde, para terminar a digressão: do meu ponto de vista, o maior malefício dos “computadores” é educar-se os seus utilizadores a não saberem distinguir entre realidade e ficção, entre o que acontece na natureza concreta e o que apenas acontece num a fábula programada “in silico”. “Chapeau” a Woody Allen pela “Rosa púrpura do Cairo” e, claro, ao “Homem com a câmara de filmar” de Dziga Verov (a quem a “Rosa…” faz uma homenagem quando o personagem, como o motociclista de Vertov, salta do ecrã para a sala): parece que estava a adivinhar o que iria acontecer à ciência: os cientistas passarem a julgar que é reaal aquilo que veem no ecrã do cinema…

“Estudos” sobre a C19, como sabe, foram publicados muitos, muitas centenas. Na generalidade, lixo: uma grande parte, são apenas opinativos, sem base material, sem observação empírica; outros, assumem outra forma de ser opinativo: são resultados de “modelos”. Peneirando, sobra pouca coisa (uma dezenas de bons trabalhos científicos). Contágio. Na sequência do que disse: o que é isso? Se olhar para a bibliografia científica, para os jornais e televisões e para as declarações dos mais diversos “especialistas”, é uma coisa que se “mede” pelo Rt, ou R-qualquer-coisa. Ou seja, o produto de um “modelo”. A “verificação” empírica faz-se, segundo estes sábios, comparando datas e curvas em gráficos; “in silico”, portanto. Mais uma vez, peneirando a informação, resta pouca coisa que se possa classificar como “científica”.

Respondendo à sua pergunta: há algumas coisas sobre contágio nas escolas. Até cá em Portugal, na “testagem massiva” de alunos antes de fecharem as escolas e de professores e restante pessoal das que ficaram abertas: leia o artigo do Público de 17 de Fevereiro (o DN publicou um mais detalhado, que agora não encontrei): ”Os quase 16 mil testes rápidos de antigénio que foram realizados em escolas desde finais de Janeiro permitiram identificar 50 casos de infecção pelo novo coronavírus entre alunos, professores e funcionários. As análises foram feitas, numa primeira fase, nos concelhos que estavam classificados como de risco? extremamente elevado? e, mais recentemente, nas escolas de acolhimento para os filhos dos profissionais essenciais, que se mantiveram abertas. ”Quase 16 mil testes deram 50 positivos, nas escolas que ficaram abertas”. Isso diz tudo.

Por outro lado, há o que lhe indiquei sobre as escolas escocesas: Sharing a household with children and risk of COVID-19: a study of over 300,000 adults living in healthcare worker households in Scotland https://www.medrxiv.org/con…/10.1101/2020.09.21.20196428v2

Saliento estes dois casos porque não são resultados obtidos “in silico”, não tratam de “Rt” nem de outras bruxarias: tratam de casos concretos, de pessoas concretas observadas de facto. Perante isto, quero lá saber dos valores dos “Rt”!Escavando um pouco mais o assunto: “estudos”, como classicamente os entendemos, creio que não foram feitos. Há vários anteriores, sobre as epidemias de influenza. Seria preciso estabelecer um protocolo de observações, realizar os inquéritos para saber como se deram os contágios (se dentro da escola ou em outros lugares), etc. Suponho que não tenha sido feito nada parecido. No entanto, a prevalência na população é evidência bastante para concluir que as escolas abertas não são perigosas. Pronto. Foi um bocado longo. Espero ter-lhe dado matéria para pensar não só no tema (escolas) mas também nos seus “arredores”.

Um abraço, 

João Martins, biólogo” 

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